Quem tem medo da CazéTV? A cruzada de Erika Hilton mira no alvo errado
Erika Hilton acionou o MPF para calar comentaristas que falam de apostas na Copa e mirou na CazéTV e no torcedor. Atacou justamente quem fez tudo certo: pagou outorga, paga imposto e opera dentro da lei. O vilão real continua na sombra.
Na terça-feira, enquanto meio país parava para ver futebol de graça no YouTube, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) protocolou no Ministério Público Federal um pedido para investigar os comentaristas esportivos que ousam mencionar apostas durante as transmissões da Copa do Mundo. Na prática, um pedido para calá-los. Reli a notícia três vezes para ter certeza de que não era sátira. Não era.
O alvo da vez não é o cassino clandestino que opera de um servidor em paraíso fiscal e recebe Pix na conta de um laranja. Não é o site pirata que sequestra o saque do apostador e some no dia seguinte. O alvo é o comentarista. É a CazéTV. É, no fim da linha, o cidadão brasileiro, adulto e vacinado, que decidiu por conta própria apostar dez reais no jogo do Brasil enquanto assiste à partida.
O paternalismo de sempre, agora com a camisa 10
“É inaceitável que um comentarista use sua posição de especialista para induzir os telespectadores a apostar”, disse a deputada. Eu inverteria a frase. É inaceitável que um parlamentar use o mandato para decidir o que um adulto pode ouvir, ver e fazer com o próprio dinheiro. Existe uma diferença civilizatória entre proteger o vulnerável e tratar 200 milhões de pessoas como crianças incapazes de tomar uma decisão. A deputada escolheu o segundo caminho, que por acaso também é o mais fácil, o do biombo moral.
Que ninguém me entenda mal: não estou defendendo empurrar aposta goela abaixo de adolescente, nem mentir sobre risco. Pelo contrário. Mas transformar “falar de odds” em caso de polícia é confundir liberdade com crime. E confunde mirando justamente em quem fez tudo certo.
Quem pagou a conta para jogar dentro da lei
Falta dado a esse debate, então vamos a eles. Desde a Lei 14.790, sancionada no apagar das luzes de 2023, depois de anos de discussão no Congresso, apostar no Brasil deixou de ser terra de ninguém. Passou a ter CNPJ, fiscal e dono com nome e endereço. Cada operadora que quis entrar no jogo legal desembolsou uma outorga de até R$ 30 milhões, válida por cinco anos, e topou recolher 12% sobre a receita bruta, o tal do GGR. Isso fora os outros tributos que qualquer empresa séria paga neste país, e tudo sob a lupa da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda.
São quase duas centenas de empresas que assinaram esse contrato com o Estado brasileiro. Elas não pediram favor. Pagaram, se cadastraram, aceitaram as regras e hoje são fiscalizadas. A recompensa por terem saído da sombra para a luz foi virar vilã do horário nobre. Faz sentido para você? Para mim, não faz.
A CazéTV não invadiu a Copa. Ela comprou.
E aqui entra o segundo réu dessa história torta, a CazéTV. Casimiro Miguel não pulou o muro da Copa. Ele sentou na mesa, negociou e comprou os direitos digitais da Copa do Mundo de 2026, todas as 104 partidas, e fez o que nenhuma emissora aberta teve coragem de fazer na mesma escala. Botou de graça, em alta definição, no YouTube, ao alcance de qualquer brasileiro com um celular e uma conexão.
Pare um segundo para medir o tamanho disso. Um sujeito que começou narrando jogo da própria sala virou o maior fenômeno de mídia esportiva do país, democratizou o acesso ao maior evento do planeta e ainda montou uma operação publicitária que beira os R$ 2 bilhões, com cotas máster disputadas a peso de ouro. Isso tem nome, e o nome é empreendedorismo legítimo. É o tipo de história que um país sério estampa como exemplo, em vez de arrastar para o Ministério Público.
O Estado que cobra e depois estrangula
O que mais incomoda nessa cruzada é a incoerência. O mesmo poder público que cobrou a outorga milionária, que fatura 12% sobre cada real de receita das casas e que precisa desse dinheiro entrando no caixa é o que agora quer fechar, um a um, os canais de divulgação dessas empresas. Veio a restrição aqui, a proibição ali, e agora um projeto de lei, o PL 3.563/24, que pretende banir publicidade de aposta em tudo que é lugar: TV, internet, rede social, outdoor. Ou seja, paga para operar, mas não pode aparecer. É como vender a licença de um restaurante e proibir a placa na porta.
Empresa que não pode anunciar não desaparece. Ela só perde espaço para quem nunca se importou com regra nenhuma. Cada amarra imposta à bet regulada é um presente embrulhado para a bet ilegal.
O inimigo real está na sombra
Porque é isto que ninguém quer encarar. Enquanto se discute se o comentarista pode ou não citar uma odd, o mercado clandestino segue intacto, faturando alto e sem prestar contas a ninguém. É ele que dá o calote, que trava o saque, que pede selfie com documento e some, que lava dinheiro e não devolve um centavo de imposto à sociedade. O apostador empurrado para fora do ambiente regulado não para de apostar. Ele só troca uma casa fiscalizada por uma quadrilha. Esse é o resultado prático e previsível de tratar quem paga imposto como se fosse o criminoso.
Se a deputada Erika Hilton quer mesmo proteger o brasileiro, e eu prefiro acreditar que quer, o caminho é o oposto do que ela escolheu. É fortalecer a regulação, cobrar jogo responsável de verdade, educar, sinalizar e oferecer ferramentas de autoexclusão. Não é acionar a polícia contra o Casimiro, contra o comentarista e, lá na ponta, contra o próprio torcedor.
O brasileiro quer ver a Copa de graça e, se tiver vontade, apostar uns trocados no ambiente legal, onde existe regra, existe fiscal e existe a quem reclamar. Não é pedir muito. Vale o de sempre: +18, jogue com responsabilidade. E, por favor, deixem a gente assistir ao futebol em paz.
